Você está bem apenas quando está conectado?

Publicado por Marilvia Oliveira em 04/04/2013 às 00h18

Primeiro dia de abril. Estou em reunião com um player internacional, ainda com ressaca dos chocolates da Páscoa. Em certo momento, brinco sobre seu estilo lacônico nos e-mails. Ele me responde: eu detesto celular e internet. Gosto de olhar nos olhos da pessoa, ver como ela pensa, como fala. E isso não é primeiro de abril: enquanto falamos, em sua belíssima sala de reunião, em um dos andares mais altos de um edifício "inteligente", uma seleção de músicas contemporâneas faz fundo às conversas e ele atende muito rapidamente a duas ligações em seu celular e delas se desvencilha, informando que não poderia falar. Consistente, pensei.

Mais consistente ainda com uma tendência que vem começando a se esboçar: a da desconexão.  Francis Jaureguiberry, que comanda um grupo de pesquisa sobre a sociologia da comunicação, desenvolve trabalhos sobre a desconexão – uma reação social à lógica da comunicação moderna, que rouba do homem seu próprio tempo e seus ritmos em prol de uma “sincronia generalizada”. Eu ligo para você e você tem que estar aí. Ei, por que você não atende o celular? Eu me conecto ao Facebook e questiono, ao não te encontrar: onde você estava que não te vi no Facebook? Você acabou de abrir uma empresa e os funcionários reclamam que você não instalou internet em rede para eles... E assim por diante.

Se estivéssemos falando apenas de um professor de sociologia, e um empresário singular, poderia até dizer que estas pessoas não entendem do mundo moderno. Mas, pasmem, reações similares estão ocorrendo no coração do mundo moderno da internet e das novas tecnologias. Três quartos dos pais de alunos da escola Waldorf no Silicon Valley – em San Francisco - são ligados às novas tecnologias, alguns, inclusive, do Google. A escola é orientada a partir da visão de Rudolf Steiner que busca estimular todas as capacidades da criança - física, emocional, intelectual, estética, moral e espiritual - e onde a tecnologia tem lugar restrito.

Um destes pais, Pierre Laurent, segundo reportagem do Le Monde, diz que o computador é apenas uma ferramenta. Para aprender a escrever, é importante poder efetuar grandes gestos. A matemática necessita da visualização espacial. A tela do computador reduz as experiências físicas e emocionais. Pierre Laurent diz que não teme a desconexão de seu filho, pois trabalhou 12 anos na Microsoft e sabe que os softwares serão cada vez mais simples. Por que então colocar a criança muito cedo em contato com tecnologias que estarão, provavelmente, superadas quando ela crescer? Touché!

Não bastasse este cenário desafiador e amplo, que estamos tentando, com esforço, resumir aqui, Francis Jaureguiberry vai mais longe e ousa: os “pobres” no mundo da tecnologia são os que têm que ficar conectados e tem a responsabilidade de responder a um email de imediato, e os “novos ricos” da tecnologia são os que têm a possibilidade de filtrar e definir certa distância desta interpelação permanente. Jaureguiberry inclusive compara com a televisão onde o consumo excessivo de TV é típico das classes populares. Uau! Durma-se com um barulho destes!

Se tudo que está implícito neste post ainda não está claro, e se os desafios que começam a surgir para as empresas que vivem da internet e da conexão permanente inquietam, mais louco ainda será ver o vídeo “Really?” abaixo onde, sob a vibrante musica de Edvard Grieg, este mundo da conexão permanente é questionado e capitalizado pelo próprio celular. Delícia de mundo complexo e instigante o nosso, hein! Haja coração!

Categoria: Interações, Redes Sociais
Tags: conexão, desconexão, educação sem computador, Rudolf Steiner, Waldorf, Windows Phone

Comentários

Eugênio em 04/04/2013 13:03:37
Marílvia,
Grande texto!
Creio que a constatação mais "moderna" dele seja sobre o poder de sim, ou não, atender ou de permitir o acesso a si mesmo.
Poderia dizer que os mais velhos já tem essa distância da tecnologia, mas eles não tem mais o poder decisório das empresas e atividades que interferem na vida dos outros, afetados pelo acesso ou não aos smatphones e redes sociais da vida digital.
As redes sociais sempre existiram, desde os tempos das cavernas. Sem elas nossos ancestrais não teriam conseguido caçar em grupo animais com a boca maior do que a deles.
Mas toda essa possibilidade de acesso é sim uma questão de posicionamento.
As pessoas mais jovens querem estar disponíveis, serem achadas, interagir sem parar.
Boa reflexão!
claudio tadeu ribeiro dutra em 04/04/2013 09:40:48
Muito bom !!!


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